Thursday, April 10, 2008

A cidade Prefeita

Era uma vez, num futuro longínquo, uma cidade quase perfeita.
Não existiam malfeitores ou preguiçosos, não havia poluição, trânsito ou degradação.
Á primeira vista era tudo perfeito.
Na cidade quase perfeita, em frente de cada casa estava uma bandeira.
As bandeiras podiam ser vermelhas, amarelas, brancas ou negras.
E, apesar de não ser obrigatório, fazia parte do senso comum cada habitação ter a sua bandeira.
E porquê?
A bandeira indicava a cor da pele da família que ai vivia.
E por existirem bandeiras quatro cores possíveis é que a cidade era quase perfeita.
Assim pensavam os seus habitantes.
Mas, seria?

 

 

As pessoas de pele branca só gostavam de bandeiras brancas e orgulhavam-se da bandeira que tinham em frente da sua casa.
Da mesma forma pensavam as pessoas de outras cores.
As crianças de cores diferentes não brincavam juntas, os adultos de cores diferentes diziam “olá” e “bom dia”, mas a conversa já não chagava ao “como está?”.
Isto é, na cidade quase perfeita, a cor da bandeira servia para identificar quem eram os possíveis amigos.

 

 

Mas acontecia que, todos os meses, na cidade quase perfeita havia uma reunião com todos os habitantes da cidade.
Era liderada pelo presidente da câmara e realizava-se num edifício do tamanho de dois campos de futebol.
O edifício chamava-se “O Individual”.
Era assim que se procurava manter a quase perfeição da cidade.
O Individual, que tinha apenas uma grande porta, simboliza o poder e a singularidade da cidade.

 

 

Num certo dia de Inverno, caía um forte nevão na cidade quase perfeita, mas nem por isso se adiou a grande reunião.
Encontrava-se a cidade em peso no Individual, quando se ouviu um enorme estrondo, algo de sobrenatural.
Um milésimo de segundo depois, todo o Individual ficou ás escuras, gerou-se o pânico entre as 33000 pessoas que começara numa correria desenfrada para a grande entrada;
Só que a porta não abria.

 

 

Sem ver o seu auditório, o presidente, com sangre frio, apercebeu-se do perigo da situação:
   Nunca na cidade quase perfeita alguém tinha assistido a uma falha de electricidade;
As pessoas atropelavam-se e poderia mesmo haver mortes por esmagamento.
Rapidamente dá a mão á pessoa que estava a seu lado, que por sua vez percebeu a mensagem:
Formou-se um grande cordão humano dentro do Individual.
“Calma, calma, ouviu-se.
Sem olhar á cor da mão em que se segurava, apenas agarrando-a, sabendo que essa mão poderia salvar a sua vida, todos se acalmaram, e a extremidade do cordão ao pé da porá conseguiu arrombá-la.
Lentamente, a multidão saiu do Individual para a neve gélida.
Uma a uma, as pessoas aperceberam-se de que a mão que seguravam não era da sua cor.
No entanto, agarraram-na de igual força.

 

 

 

Dentro do Individual, ás escuras, o cordão humano tinha permitido que as pessoas, uma vez cá fora, se apercebessem de que a sua cidade era quase perfeita.
Até àquele dia, ninguém se tinha apercebido de que uma mão negra, branca, amarela ou vermelha tem a mesma força para agarrar seja ás escuras seja ás claras.

 

 

Este texto alerta para todas as pessoas que sejam racistas.

 

 

 

Joana Rute, 15 anos  

Posted by Neia at 12:38:40
Comments

Leave a Reply